Com o surgimento e o aperfeiçoamento das técnicas diagnósticas , era de se esperar que os quadros clínicos de “origem indeterminada” ou de “causa desconhecida” desaparecessem da prática médica usual. Infelizmente isso ainda não ocorre e, dentre eles, a febre de origem indeterminada na infância continua a ser um problema que desafia a capacidade diagnóstica do médico, angustia a família do paciente, sujeita este a desconforto e sofrimento e distende ao máximo a relação entre esses protagonistas.
Critérios de Inclusão
Tradicionalmente o conceito de febre de origem indeterminada firmou-se em duas variáveis interdependentes: o tempo de duração do quadro febril e a amplitude dos estudos complementares executados, sem sucesso, para esclarecê-lo. Esses sempre foram e continuam sendo critérios arbitrários; tanto o tempo de observação quanto o estudo complementar mínimo anteriormente recomendados já não se sustentam, tendo em vista o progresso na técnica diagnóstica e sua disponibilidade cada vez mais ampla, mesmo para quem está afastado dos grandes centros.
Assim, parece que chegamos a um ponto em que não é possível definir a febre de causa indeterminada por critérios absolutos, mas considerá-la um quadro febril que persiste sem diagnóstico etiológico, esgotados os recursos diagnósticos do meio em que é estudado. Isso se acomoda à realidade óbvia de que há centros de elevadíssimos recursos, nos quais em breve espaço de tempo podem realizar-se sofisticados exames, a par de regiões periféricas em que, além de modestas as técnicas disponíveis, exigem maior tempo para sua realização.
Ocorrências que Contribuem para o Desconhecimento da Origem da Febre e Medidas Tendentes a Combatê-las
Jamais será excessivo acentuar-se a absoluta necessidade de uma exaustiva anamnese (atual, pregressa, família, ambiental, social) e do mais minucioso exame físico, inclusive valorizando impressões de quem cuida da criança, ainda mesmo que com ela não concorde o médico.Não desprezar o fato de que quem cuida da criança tem com esta uma familiaridade que lhe permite surpreender detalhes que não suscetíveis a uma observação mais curta ou superficial.
Também não se pode exagerar na imperiosa necessidade de, logo de saída, estabelecer um vínculo de honestidade e confiança com a família e a própria criança, o que melhor se consegue dando ciência, passo a passo, do que se pretende fazer e quais as razões para isso, sem ocultar que a pesquisa pode resultar inútil.
Com relação às próprias pressuposições, embora se deva admitir uma só causa que explique a febre e os demais sintomas ou sinais, se acaso ocorrerem, não esquecer que é sempre mais provável encontrar-se duas condições comuns, cada qual explicando parte do quadro, que uma condição rara, que o explique por inteiro. Acrescente-se que, se por formação científica , fomos educados a proceder por um método estrito e sistemático de pesquisa em nossas investigações, aqui não cabe fazer-se uma lista de possíveis condições (o que, de resto, abrangeria quase toda a medicina) e partir para validá-las ou invalidá-las uma a uma.
Finalmente, não perder de vista que, mesmo com o emprego dos meios mais apurados até o presente disponíveis, casos haverá em que a causa da febre permanecerá desconhecida.
Atendidos esses pré-requisitos, passemos a considerar:
Ocorrência | Como Combatê-la |
Inexperiência do médico | Atualizar-se sempre:”um médico nunca se forma” |
Enfermidade ocorrendo em local inesperado | História de viagens a outras localidades História de contactantes vindos de outras localidades Acompanhar alterações nosológicas no meio |
Meio incomum de transmissão | Investigação dos antecedente do quadro |
Apresentação incomum de enfermidade comum | História de outros enfermos que apresentaram idêntico quadro inicial e evoluíram de maneira típica de alguma condição patológica |
Doenças incomuns (viroses emergentes) | Manter-se atualizado |
Atribuição de etiologia única a quadros febris não relacionados | Especial atenção à duração dos intervalos assintomáticos e condição geral do paciente nos mesmos |
Exames complementares falsamente positivos ou negativos | Repetição. Uso de laboratórios e clínicas de diagnóstico por imagem de confiança e com experiência com crianças |
Terapêutica precipitada e imprópria, bloqueando o curso clínico mais característico da enfermidade | Pausa terapêutica |
Tempo de observação insuficiente | Dar tempo ao tempo, desde que o estado do paciente o permita |
Intercorrências mascarando o diagnóstico de base | Suspeitar de quadros de mesma natureza e repetitivos (Ex: infecções) |
“Munchausen by proxy” | Investigar as condições de observação da febre: quem, quando, como ? |
Falta de recursos diagnósticos | Encaminhamento a centro maior |
O Que Os Exames Complementares Podem Oferecer
Sugerem processo inflamatório | Reagentes de fase aguda |
Sugerem infecção | Hemograma: melhor valor evolutivo e prognóstico que diagnóstico |
Identificam infecção | Culturas, Provas Imunológicas |
Localizam lesões e sugerem causas | Diagnóstico por imagem |
Identificam lesões e causas | Biópsias |