Cisaprida é um grande procinético que facilita a motilidade gastrointestinal com significante aumento da pressão do esfíncter esofageano inferior e melhora do esvaziamento gástrico, tendo como mecanismo de ação o aumento da liberação de Acetil-colina (Ach) no plexo mioentérico. O papel da cisaprida como droga procinética tem sido descrito no tratamento das seguintes patologias: Esofagite, RGE, gastroparesia, dispepsia, RGE com doença respiratória (pneumonia de repetição, apnéia, asma, rouquidão e estridor), constipação, pseudo-obstrução e síndrome de obstrução do íleo distal. A metabolização dessa droga se faz via hepática através do sistema de citocromo P450, de tal forma que a sua administração associada a outras medicações que interfiram e/ou utilizem essa mesma via enzimática poderá acarretar um aumento na sua concentração sérica . Recentemente descrições clínicas tem responsabilizado o uso de cisaprida a alguns efeitos adversos sobretudo ao aparecimento de arritmias e morte súbita. O mecanismo cardiotóxico presumível envolve um prolongamento do QTc, retardando a repolarização miocárdica, entretanto os efeitos da cisaprida no ECG pediátrico não estão sistematicamente descritos. Riscos versus benefícios precisam ser cuidadosamente avaliados uma vez que esse é um agente extremamente utilizado no meio pediátrico e na gastropediatria. Como minimizar tais riscos:
1) Evitar uso concomitante de drogas particularmente antibióticos macrolídeos (eritromicina, claritromicina...), antifúngicos (fluconazol, miconazol e ketoconazol) e anti-histamínicos (astemizol e terfenadina), medicações que inibem o citocromo P450;
2) Recomenda-se limitar a dose a 0,8mg/kg/dia divida em três a quatro vezes no período de 24 horas, não excedendo a dose no adulto de 20mg 4 vezes ao dia;
3) Anormalidades séricas de íons como o K, Mg, Ca podem aumentar o risco de arritmias. Similarmente função renal e hepática alteradas podem afetar o nível plasmático da cisaprida. Consequentemente medidas séricas de potássio, magnésio, cálcio e testes de função hepática e renal podem ser realizados quando clinicamente apropriado;
4) Descontinuação da medicação temporariamente, pode ser considerada na presença de estados agudos que possam precipitar distúrbios hidroelétrolíticos;
5) Evitar o uso de cisaprida em portadores de cardiopatia;
Cautela no uso no prematuro;
6) Enfim, em pacientes sem fatores de risco não há ainda evidência de que o ECG realizado antes ou durante a terapia com cisaprida, diminua o risco de graves arritmias.
Dra. Roberta Paranhos Fragoso
Presidente do Comitê de Gastroenterologia Pediátrica da SOESPE